Copa
2014 tem gastos públicos recordes
O Brasil tinha a chance de gerar lucro e
mudanças importantes com a Copa do Mundo deste ano, sem realizar nenhum gasto
público, como fez os Estados Unidos no evento de 1994. A poucos meses para os jogos se mostra o maior gastador de
verbas do governo em Mundial de Futebol, em nome de um evento que deve
beneficiar principalmente, ou apenas, a iniciativa privada. Que pode ainda
gerar desemprego e outras consequências negativas. Qualquer coisa que se ganhe
com a Copa de 2014, então, pode não se comparar ao preço que o país já começou
a pagar. Uma das grandes paixões do brasileiro, que virou parte da cultura
principalmente nas camadas mais pobres da sociedade, de onde sai, inclusive, a
maior parte dos jogadores, agora se volta cada vez mais à elite.
Apenas um terço dos ingressos dos jogos da Copa estão disponíveis para o torcedor brasileiro pela distribuição inicial da Fifa, de acordo com artigo do blog do Rodrigo Mattos, no Uol Esporte. Com 12 cidades-sede, nenhum outro Mundial teve uma oferta de assentos tão grande, mas nem por isso os brasileiros ganharam facilidade para conseguir uma entrada, que não são baratas.
Os ingressos
Foram
muitas as manifestações pelo Brasil inteiro contra os gastos na Copa. Muitos,
inclusive, torcem para que dê tudo errado e ela não aconteça. Outros, animados
com promessa de bom entretenimento, se empenharam para conseguir um ingresso
para os jogos. A sorte, no
entanto, não sorriu para todos. Em novembro, o Procon alertava que mais de seis
milhões de torcedores que se inscreveram para o sorteio no site da Fifa, não foram devidamente informados sobre
as etapas e critérios da seleção. Um sorteio obscuro, classificou o advogado
Ricardo Amitay Kutwak.
Empresas patrocinadoras fazem promoções
com as entradas da Copa do Mundo
O evento no Japão e na Coréia, em
2002, deixou grandes prejuízos para o primeiro país. Segundo o membro da
comissão da Copa no Japão, Ichiro Hirose, o país não teve um planejamento
estratégico para a utilização dos estádios após o evento e, como os custos de
manutenção desses espaços são muito altos, tem enfrentado um prejuízo de cerca
de U$ 5 milhões por ano ao governo japonês. O impacto, contudo, de acordo com o
Dentsu Institute dor Human Studies, teria sido da ordem de US$ 24,8 bi na
economia japonesa e de US$ 8,9 bi na economia coreana.
A Copa na Alemanha, em 2006, custou
US$ 6 bi, e o país recebeu 2 milhões de turistas. O setor público financiou um
terço dos 2 bilhões de dólares gastos nas obras nos estádios. Não gastou quase
nada e o lucro foi grande. Durante as quatro semanas, o incremento de receita
gerado por gastos de turistas foi de 300 milhões de euros. Brenke e Wagner,
todavia, constataram que o desemprego após a realização do evento tende a
crescer. Gert Wagner, do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, por sua vez,
analisou o impacto da Copa de 2006 como minúsculo diante da magnitude da
economia alemã. Ainda assim, houve incremento no turismo. O gasto médio de
turistas em 2005 na Alemanha era de 174 euros por dia, durante a Copa, o valor
subiu para 400 euros. No ano seguinte, o país também registrou aumento de
pernoites e chegada de turistas.
A Copa da África do Sul, em 2010,
custou US$ 8 bilhões. Os investimentos em infraestrutura urbana foram muito
elevados em comparação com a Alemanha, que já tinha a maior parte dos estádios
e arenas, mas bem menor que os do Brasil. Os salários na África, porém, são
menores que os da Alemanha, por exemplo, o que representa redução dos custos
operacionais e de infraestrutura. O evento teve a previsão inicial de gastos de
R$ 2,1 bilhões. A dívida sul-africana com as obras do Mundial eram de 4 bilhões
de dólares para sediar a Copa, a mesma quantia que a Fifa anunciou como lucro.
Para um país com tantas carências, como o Brasil, foi um grande gasto para dar
lucro a uma empresa privada.
Maracanã inspirou diversos protestos pelo
país e ficou marcado pelo custo das obras acima do previsto, assim como em outros
projetos da Copa no Brasil.
O geógrafo Gaffney reforçou em entrevista para a Carta
Capital que a Fifa conta com cinco ou seis pessoas comandando, ligadas
diretamente ao Ricardo Teixeira. A estrutura, alertou, permite que ninguém
assuma responsabilidades, pois quando surge um problema "o COL joga para o
Ministério do Esporte, que pode jogar para a Infraero, que joga para a
CBF, que diz que não tem nada com isso porque diz que os contratos são com as
cidades, que pode jogar para o Estado, que pode jogar para a CBF. Não existe
uma estrutura centralizada da Copa. E se você procura informações sobre a
organização na internet, você chega só nas páginas da Fifa. Não há informações.
E depois, quando apertar, a responsabilidade vai cair no colo do governo
federal, como houve no Pan e na Olimpíada."
Estados Unidos não precisou realizar gastos públicos e ainda teve lucro.
No total, para todas as
cidades-sede brasileiras, a previsão de aplicação de recursos do TCU é de R$
8,3 bi em financiamentos federais, R$ 6,3 bi em recursos diretos federais, R$ 4
bi estaduais, R$ 1 bi municipais e R$ 4 bi de outras fontes - em um total
previsto de R$ 25,9 bi. Artigo do pesquisador e consultor da Trevisan Gestão do
Esporte e diretor da Trevisan Escola de Negócios, Fernando Trevisan, no Portal
2014, reforça que, além de empréstimos do BNDES, outra forma de presença de
recursos públicos nos estádios é pela isenção de pagamento de tributos.
Trevisan aponta que, de acordo com o Tribunal de Contas da União, o governo vai
deixar de arrecadar RS 461 milhões - o que não chega a representar tanto,
considerando que o setor automotivo deixou de pagar R$ 7,9 bilhões em tributos
desde 2008, por conta de políticas de incentivo governamental.
Os Estados Unidos, durante a
Copa de 1994, receberam 400 mil turistas e não precisaram gastar um centavo
para receber o evento, já que toda a infra-estrutura estava pronta. De acordo
com estudos da Universidade de Nova Iorque, o principal objetivo dos Estados Unidos em sediar a Copa do Mundo
foi o de promover o futebol no país. Nova Iorque, São Francisco e Boston
tiveram receita de U$ 1,45 bilhão. Na indústria hoteleira, o crescimento, em
comparação com o ano anterior, foi de 10%, e na indústria de
alimentos e bebidas, de 15%.




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